Após protagonismo na transmissão do Mundial de 2026, FIFA avalia conflito de interesses envolvendo a LiveMode, empresa controladora do canal
O canal de streaming CazéTV ganhou destaque na Copa do Mundo de 2026 como alternativa digital às transmissões tradicionais. A LiveMode, empresa de mídia esportiva dona e controladora da CazéTV, atua em diferentes frentes do mercado esportivo, sendo elas transmissão, negociação de direitos e relação com ligas e clubes no Brasil, o que tem causado crescente preocupação dentro da FIFA. Agora, o futuro da parceria entre a entidade e o canal para a Copa do Mundo de 2030 está em xeque.
A FIFA vê um problema estrutural na arquitetura de negócios da LiveMode. A empresa acumula ao mesmo tempo os papéis de compradora, vendedora e exibidora de direitos esportivos. Mais do que isso: compartilha investidores com a Futebol Forte União (FFU), uma das principais organizações ligadas ao futebol de clubes no Brasil, que representa times como Corinthians, Fluminense, Internacional e Vasco, entre outros 31 clubes.
O elo entre as empresas passa pela XP Investimentos e pela General Atlantic, firma norte-americana de capital de risco. Em 2023, as duas lideraram um consórcio que investiu R$ 2,6 bilhões para adquirir 20% dos direitos comerciais dos clubes da FFU por 50 anos. Seis meses depois, em abril de 2024, anunciaram também aportes na LiveMode, valores não divulgados, mas com participação minoritária, mantendo Edgar Diniz, Sérgio Lopes e Casimiro Miguel como principais sócios.
A LiveMode, além de dona da CazéTV, é a agência exclusiva da FFU, responsável por toda a negociação e administração dos seus direitos de transmissão. Para a FIFA, a combinação é problemática: a mesma empresa que representa os clubes vende os direitos deles, compra direitos de competições e ainda os exibe ao público. Um único agente ocupando três lados da mesma mesa.
A janela que abriu as portas da CazéTV
Em 2020, a Globo abriu uma disputa judicial com a FIFA para renegociar o contrato firmado em 2013, pelo qual detinha todos os direitos das Copas do Mundo até 2030. O impasse se resolveu em 2022: a emissora abriu mão da exclusividade no ambiente digital e reduziu seus desembolsos anuais de cerca de US$90 milhões para aproximadamente US$40 milhões, pagando por apenas metade dos jogos da Copa de 2026.
Foi essa brecha que a LiveMode e Casimiro Miguel aproveitaram. Em 2022, compraram os direitos de transmissão digital da Copa do Mundo do Catar por apenas US$3 milhões e transmitiram os jogos em um canal no YouTube. O resultado surpreendeu: audiências expressivas, engajamento massivo e uma nova forma de consumir futebol no Brasil. O sucesso na Copa de 2026 consolidou o canal como uma força real no cenário das transmissões esportivas.
A trajetória da LiveMode no mercado de direitos é igualmente impressionante. A empresa conduziu as negociações do Brasileirão para o ciclo 2025–2029, fechando contratos com Grupo Globo, YouTube/CazéTV, Record e Amazon Prime Video, o que gerou um aumento de 110% na receita anual do campeonato, de R$ 800 milhões para R$ 1,7 bilhão por temporada, com projeção de R$ 2,2 bilhões até 2029.
A política entra em campo
Além da questão estrutural, há um fator político contra a CazéTV. A CBF lançou em 2025 um projeto para criar uma liga nacional unificada de futebol a partir de 2030, reunindo os clubes hoje representados pela FFU e pela Libra (Liga Brasil, que inclui Flamengo, Palmeiras e São Paulo). A briga entre as duas ligas coloca a LiveMode, agência da FFU, em rota de colisão com os planos da CBF.
E a FIFA tem um lado claro nessa disputa: o da CBF, uma de suas filiadas mais importantes. Em conversas informais durante a Copa de 2026 nos Estados Unidos, membros da entidade teriam demonstrado desconforto explícito com a situação. Entre as medidas cogitadas estão exigir que a LiveMode assuma apenas um papel, comprador ou exibidor, ou condicionar a renovação dos direitos da Copa de 2030 à saída dos investidores XP e General Atlantic, desvinculando a empresa da FFU.
Não seria a primeira vez na história do esporte (e dos negócios) que um agente disruptivo enfrenta resistência justamente no momento em que mais cresce. A CazéTV não apenas democratizou o acesso ao futebol no Brasil, mas mostrou que era possível competir com décadas de monopólio das transmissões tradicionais. Agora, o próprio tamanho da operação construída pela LiveMode se torna o obstáculo. Quanto maior o ecossistema, mais visíveis ficam os pontos de sobreposição – e mais difícil fica convencer reguladores e entidades de que não há conflito de interesses.
A Copa do Mundo de 2030 será disputada na Espanha, Portugal e Marrocos. As negociações de direitos já estão em andamento. O que acontecer nos próximos meses vai definir se a CazéTV estará na tela dos brasileiros naquele verão, ou se ficará de fora do maior espetáculo do futebol.
