A busca por previsibilidade, a padronização de produtos e o suporte contínuo ao franqueado ajudam a explicar por que redes que dispensam a cobrança tradicional de royalties vêm ganhando espaço 

Durante muito tempo, empreender via franquia significava abrir mão de uma fatia mensal do faturamento em troca do uso da marca. Hoje, esse cenário vem sendo questionado. Uma parcela das redes brasileiras decidiu inverter a lógica: em vez de cobrar royalties, a franqueadora passa a lucrar com o fornecimento de insumos exclusivos, deixando 100% do resultado da operação nas mãos de quem toca o negócio no dia a dia.

A mudança está, principalmente, na forma como franqueadora e franqueado dividem o risco. Sem a cobrança mensal sobre o faturamento, o empreendedor consegue reinvestir mais rápido na própria loja, e a franqueadora só cresce se o franqueado também crescer. Isso aproxima os interesses das duas pontas do negócio.

Esse cenário ajuda a explicar o desempenho recente do franchising brasileiro como um todo. Em 2025, o setor somou R$301,7 bilhões em faturamento, alta nominal de 10,5% em relação a 2024 e o maior resultado da série histórica, segundo o balanço anual divulgado pela Associação Brasileira de Franchising (ABF). Dentro desse universo, o segmento de alimentação e food service foi um dos destaques, com R$51,8 bilhões em faturamento e crescimento de 10,8% no ano.

É nesse cenário que uma rede como a Fábrica de Bolo Vó Alzira cresce. A história começou em 2008, quando Dona Alzira fez um bolo para levar ao pequeno comércio do marido no Rio de Janeiro. Como não o encontrou, deixou o bolo em uma mercearia vizinha, e um funcionário, sem consultá-la, colocou o produto à venda. O bolo vendeu rápido, novos pedidos vieram e o que era apenas um bolo para acompanhar o café da tarde deu origem a uma das maiores redes de bolos caseiros do país.

O salto de negócio familiar para rede nacional só foi possível graças a uma inovação criada pela própria família: uma mistura exclusiva desenvolvida ao longo de anos de testes, capaz de preservar o sabor da receita original de Dona Alzira e, ao mesmo tempo, simplificar a produção o suficiente para ser replicada em qualquer unidade. Foi essa fórmula que sustentou a decisão de franquear a marca, em 2013.

A padronização do sabor entre as unidades não depende só dessa mistura. Segundo a rede, ela é resultado da combinação de três frentes: a mistura exclusiva, fichas técnicas detalhadas e o acompanhamento constante de uma equipe de consultoria de campo, que visita as lojas periodicamente para reforçar treinamentos e checar se os padrões estão sendo seguidos. Hoje a rede soma mais de 300 lojas espalhadas pelo país, produção mensal de cerca de 850 mil bolos e mais de 1.200 empregos diretos gerados, segundo dados divulgados pela própria franqueadora.

A escolha por não cobrar royalties, segundo a franqueadora, é justamente uma forma de alinhar os interesses das duas partes. A receita da empresa vem principalmente do fornecimento da mistura exclusiva usada na produção, o que faz com que o crescimento da franqueadora dependa diretamente do sucesso de cada loja. É uma lógica de parceria de longo prazo em vez de cobrança fixa mensal.

Esse suporte, aliás, começa antes mesmo da abertura da loja. A franqueadora afirma acompanhar a escolha do ponto comercial avaliando densidade populacional, perfil de consumo, fluxo de pessoas e concorrência da região, e segue depois da inauguração, com equipes dedicadas a operação, marketing, treinamento contínuo e uma plataforma de business intelligence que cruza indicadores de vendas, produtividade e rentabilidade para ajudar o franqueado a tomar decisões mais rápidas.

Não é à toa que a rede reforça que não é preciso ter experiência prévia em cozinha, confeitaria ou alimentação para operar uma unidade. Com o processo produtivo simplificado pela mistura exclusiva, o treinamento é voltado para preparar qualquer pessoa, independentemente da bagagem anterior, a reproduzir o padrão da marca desde o primeiro dia de operação.

O modelo de loja compacta, a partir de 30 m², e a boa aderência ao delivery e ao take away completam a equação que tornou esse tipo de franquia atrativo em um momento em que o consumidor busca praticidade sem abrir mão da qualidade, o mesmo movimento que, em outros setores da alimentação, vem impulsionando o crescimento de redes voltadas à padronização e à conveniência no dia a dia.