Fabricante de Franca (SP) trocou o calçado casual pelas botas militares em 2007 e hoje colhe os resultados de um segmento que avança praticamente estagnada há duas décadas
Franca (SP) carrega o título de um dos maiores polos calçadistas do país, cerca de 650 indústrias produzindo entre 30 e 35 milhões de pares por ano, com uma cadeia que movimenta de R$1,5 bilhão a R$2,5 bilhões anualmente, somando mercado interno e exportação. Mas os números do setor como um todo contam uma história de estagnação: entre 2003 e 2020, o crescimento médio anual da produção nacional de calçados foi de apenas 0,40%. Se descontarmos o efeito da pandemia e olharmos só até 2019, o avanço médio sobe para 1,71% ao ano, ainda assim, um ritmo lento. No primeiro trimestre de 2025, a produção industrial calçadista teve alta de 0,76% frente ao mesmo período de 2024, mas segue 6,16% abaixo do patamar pré-pandemia de 2019. É nesse cenário de mercado geral pouco dinâmico que um nicho específico chama atenção por seguir na contramão: o de calçados táticos e militares. E uma das empresas que ajudam a explicar esse movimento nasceu justamente em Franca.
A FORCE MILITAR não começou como fabricante de botas. A empresa está na produção de calçados desde 1985, quando fabricava linhas voltadas ao público em geral, de passeio e uso diário. A virada veio em 2007, com a criação de uma linha de botas e coturnos voltada ao segmento militar e de segurança. A aposta deu tão certo que, no mesmo ano, a empresa decidiu encerrar as demais linhas e concentrar toda a produção nesse novo nicho, decisão que se mantém até hoje. Quando a empresa entrou nesse segmento, a concorrência ainda era pequena: a maior parte das fábricas de calçados de Franca estava concentrada no casual. O cenário começou a virar por volta de 2015, quando outras indústrias passaram a enxergar no nicho tático uma vantagem estratégica que o calçado comum não oferece, um fluxo de vendas mais constante ao longo do ano, sem a sazonalidade típica da moda. O resultado foi previsível: mais concorrentes, pressão sobre os preços e redução das margens de lucro para quem já estava no setor.
A diferença entre uma bota tática e um calçado comum, segundo a empresa, começa na matéria-prima. Os materiais usados passam por testes do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), órgão público estadual habilitado a emitir laudos técnicos para o Certificado de Aprovação (CA), documento que os calçados da marca possuem. Para conseguir esse certificado, são avaliados separadamente itens como solado, couro, forração interna e palmilha de conforto. No processo produtivo, a empresa afirma trabalhar apenas com fornecedores que entregam matéria-prima de qualidade comprovada: borracha pura, sem reciclados, no solado, o que garante leveza aliada a maior resistência, e palmilhas de poliuretano virgem, pensadas para manter a maciez e a memória do material ao longo do tempo. Couro e forrações passam por testes de flexão, abrasão e desgaste antes de entrarem em produção, tudo com o objetivo declarado de suportar uso intenso de até 12 horas por dia, rotina comum entre profissionais da área.
O público-alvo principal e exclusivo da linha de botas e coturnos é o militar. Só que, ao lado dessa linha, a empresa desenvolveu um segundo eixo de produtos voltado ao público civil de atividades outdoor e adventure, que inclui também as linhas táticas e de trilha. Um exemplo direto dessa expansão é a linha de botas camufladas em microtop de alta resistência, criada para práticas como airsoft, caça, pesca e camping, com válvulas de respiro para dispersão de calor em ambientes úmidos e quentes. O crescimento do público civil interessado em estética e equipamento tático, muito puxado pelo airsoft, é apontado pela própria empresa como um fator que influenciou diretamente o desenvolvimento dessa linha. Com mais marcas disputando o mesmo espaço, um efeito colateral apareceu: hoje existem no mercado calçados com aparência muito parecida, mas preços bastante diferentes entre si. Isso tornou o consumidor mais atento, mais desconfiado de preços muito abaixo da média, sinal, segundo a empresa, de que a exigência por qualidade e conforto cresceu de forma expressiva nos últimos anos.
Os dados do setor calçadista brasileiro ajudam a contextualizar por que esse nicho específico ganhou relevância: enquanto a indústria como um todo cresce a passos lentos, e em alguns recortes ainda não recuperou o patamar pré-pandemia, o segmento tático e militar se apresenta como uma frente de negócio menos dependente da sazonalidade e mais resiliente à estagnação geral do mercado. Trata-se de uma leitura de nicho dentro de um cenário macro mais desafiador, e casos como o da Force Militar, de fábrica de calçados casuais a especialista exclusiva em botas táticas, ilustram como parte da indústria francana encontrou nesse reposicionamento uma via de continuidade.
