Estudo com 226 milhões de notas fiscais mostra que o ritmo de adequação das NFe caiu 52,8% do primeiro para o segundo trimestre

Quatro em cada dez empresas do Regime Normal chegaram ao fim do primeiro semestre sem adesão total aos campos de IBS e CBS nas notas fiscais. O dado é do Panorama do Contas a Pagar, estudo da Qive que analisou 226 milhões de notas emitidas entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026 (177,5 milhões de NFe e 48,5 milhões de NFSe). Dos 337,3 mil CNPJs do Regime Normal analisados, 40,71% (cerca de 137,3 mil) não alcançaram adesão total.

Esse grupo se divide em duas faixas. Em 28,47% dos CNPJs (96 mil) a adesão é considerada nula, porque menos de 35% das notas trazem os campos. Outros 12,24% (41,3 mil) estão em adesão parcial, com entre 35% e 89% das notas aderentes. A leitura por CNPJ considera apenas as NFe.

Quando a medição é por documento, o quadro é menos preocupante. Das 159,9 milhões de NFe emitidas por empresas do Regime Normal, 14,58% não atingiram aderência total. A fatia de notas com os campos preenchidos subiu de 74,94% em janeiro para 91,30% em junho. A diferença entre as duas leituras indica que a adequação está concentrada em parte dos contribuintes, e não distribuída pela base. Para quem compra e depende do crédito tributário, a leitura por CNPJ é a que mais importa, já que a chance de encontrar um fornecedor não adequado é dada pelo número de empresas, e não pelo de notas.

O avanço, porém, perdeu velocidade. A fatia de NFe não aderentes encolhia 4,79 pontos percentuais por mês no primeiro trimestre e 2,26 no segundo, uma queda de 52,8% no ritmo. Entre janeiro e fevereiro a redução foi de 6,10 pontos; entre maio e junho, de apenas 0,56.

“A adequação está acontecendo, mas a velocidade diminuiu ao longo do primeiro semestre”, afirma Erika Daguani, CPO e CHRO da Qive. Segundo ela, a obrigação move o mercado, mas em velocidades diferentes, porque a infraestrutura e a complexidade de cada operação também interferem.

Em serviços, o atraso é maior. Das 38,4 milhões de NFSe emitidas por empresas do Regime Normal, 27,5 milhões (71,65%) saíram sem os campos de IBS e CBS. O caminho de emissão pesa: 67,2% das notas são emitidas por sistemas próprios dos municípios, e esses sistemas respondem por 21,7 milhões das 27,5 milhões de notas não aderentes. No Emissor Nacional, 54,01% das notas saíram aderentes, contra 15,83% nos sistemas municipais.

Na prática, a conformidade de quem presta serviço não depende só do próprio ERP, mas também de como cada prefeitura implementou o novo leiaute. Empresas que atuam em várias cidades convivem com sistemas em estágios diferentes.

O levantamento mede a presença estrutural dos campos, e não a correção do enquadramento tributário. Uma empresa classificada como em adesão total pode, portanto, emitir notas com código de situação tributária incorreto ou classificação errada do item. Esse tipo de erro não gera alerta: a nota é autorizada e a operação segue.

Em 2026, as alíquotas são de teste, 0,9% para a CBS e 0,1% para o IBS, e a dispensa do recolhimento está condicionada ao cumprimento integral das obrigações acessórias. A obrigatoriedade dos novos leiautes para NFe começou em 3 de agosto. Para NFSe, ela vale desde 1º de outubro para serviços em geral e começa em 1º de dezembro para serviços específicos. Para optantes do Simples Nacional e MEIs, a exigência plena chega em janeiro de 2027. O período analisado pela Qive é anterior a todas essas datas.

Entre as medidas que as empresas podem adotar estão confirmar se a versão do ERP validada em homologação já está em produção, revisar a classificação dos itens que mais pesam no faturamento, mapear as cidades em que emitem nota de serviço e testar a emissão com operações reais. A Qive também recomenda mapear a base de fornecedores por contribuinte, e não por volume, e revisar contratos com cláusulas de conformidade fiscal.

O Panorama do Contas a Pagar é produzido pela Qive a partir de dados anonimizados processados em sua plataforma. A base não é amostra estatística nacional, e as conclusões valem para o universo analisado. Os três recortes (NFe, NFSe e CNPJs) têm bases próprias e não se somam.

Fonte: Qive, Panorama do Contas a Pagar (jan a jun/2026). Acesse: qive.com.br/panorama-do-contas-a-pagar/adequacao-ibs-cbs-reforma-tributaria